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Esquerda, volver! Parte I

 

 

 

 

O que é ser de esquerda hoje? Em um contexto onde o governo que diz estar nessa posição, se hibridiza entre a política econômica ortodoxa, rezando na cartilha do ideário neoliberal e o discurso progressista de justiça social, combate à fome e à miséria beirando as vezes a retórica radical, acusando elites – nunca especificadas - de planejarem sua queda.

 

Foi em busca de respostas para essa pergunta básica e também com um misto de curiosidade entre ver como estão se comportando os ex-companheiros do Partido dos Trabalhadores no atual momento de crise política e conhecer a megalópole brasileira que em vinte anos só tinha ouvido falar, São Paulo.

 

Bem, a cidade vai bem obrigado, me valeu diversos questionamentos sobre o senso megalomaníaco do paulista, o grande número de indies, entre outros apontamentos que valem para outros artigos.

 

A decepção veio por conta da participação do evento em si. A Assembléia Nacional Popular e da Esquerda não me suscitou a paixão para continuar sendo um ferrenho opositor do plano conservador e imperialista que está em curso. Não que eu tenha mudado de opinião, continuo esse ferrenho e incansável opositor, mas acho que terei que procurar outras armas de luta para continuar nessa batalha saudavelmente.

 

O que eu estou tentando dizer é que mesmo em um encontro que se propunha a discutir a crise política, não só do Governo Lula mas como também do Estado Burguês em essência, apontando soluções e sinalizando, de fato, com uma saída à esquerda, as pessoas se preocuparam tanto em ficar costurando apoios, discutindo politicagem como se faz magistralmente no Congresso Nacional e no Palácio do Planalto. Troca de apoios, filiações e desfiliações e muita mesquinharia marcaram todo o final de semana.

 

Ao final, já exausto de todo aquele desfile de egos na longas horas que sucederam a aprovação da carta de resoluções da Assembléia, pego o documento e vejo que todo aquele final de semana tinha sido em vão, não só para mim, mas para todas aquelas pessoas, pois nada daquilo, salvo algumas exceções, tinha alguma aplicabilidade prática.

 

O grande problema da esquerda, na minha opinião, é estar com um discurso romântico enferrujado, que não possui mais poder de aglutinação, nem de luta. Parou no tempo, deveria ter sido aposentado após a década de 1980. Do outro lado, o sistema capitalista, como sempre, soube se renovar para evitar que uma crise o derrotasse de vez. Realizou-se o Consenso de Washington, e com ele o neoliberalismo que nos rege até hoje, junto a uma dose maior de dominação imperialista por parte dos EUA.



Escrito por Mr. B às 01h05
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Esquerda, volver!! Parte II

 

 

E a esquerda, ficou aonde nesse tempo? Cogitando luta armada, criando partidos operários revolucionários, se dividindo cada vez mais, uns se radicalizando de maneira com que o diálogo se tornou impossível e outros sendo cooptados e querendo cooptar cada vez mais, deu no que deu, escândalos em profusão, corrupção, desvios de grana pesadíssima, não só aqui no Brasil, mas outros partidos socialistas e/ou comunistas que possuíam a mesma linhagem do PT também se meteram em atoleiros nos últimos 15 anos e continuam perdendo espaço e identidade programática, vide os exemplos da esquerda européia como o Partido Trabalhista da Inglaterra, que se aliou ao ultra conservador Bush, numa guerra ilegal, o SPD na Alemanha, que após sofrer uma sangria de militantes cogita governar junto à direita, sem esquecermos do aggiornamento do Partido Comunista Italiano e as denúncias de corrupção que afastaram os socialistas espanhóis do poder por mais de uma década.

 

O que fazer? Nem Lênin em seu homônimo livro pode nos ditar. A esquerda precisa de fato, sofisticar seu discurso ás causas que estão em curso nesse início de século e de milênio, precisa abandonar de vez o discurso da certeza revolucionária, que num tempo de incertezas nada mais é do que falacioso. Os movimentos sociais estão eclodindo aqui e ali, esse povo precisa ser ouvido, os desempregados, os sub-empregados, os oprimidos pelos órgãos estatais por serem diferentes, a população carcerária que se conscientizou e viu que só foi parar ali por causa de um sistema altamente excludente. Isso não faz parte do senso comum que nos é passado todos os dias de que ladrão é ladrão, de que camelô é ladrão, de que lugar de mulher é em outdoor de cerveja, de que viado tem que morrer e negro voltar para a senzala de cabeça baixa.

 

Articulando e organizando todo esse contingente esquecido pelo fanatismo do proletariado inexistente, é que poderemos fazer a verdadeira revolução. A Revolução de verdade começa local, começa com uma série de atitudes corriqueiras, e não com armas (que seriam conseguidas não se sabe aonde) e guilhotinas, isso hoje é artigo de museu.

 

Saí de São Paulo, no entanto, com a sensação de que este trabalho vai ser mais árduo do que ir ao mercado negro comprar armar e fazer uma brigada vermelha, raptando uns ACM´s da vida em busca do sonho dourado da Revolução. Mas é esse trabalho de formiguinha que pode, de fato, alcança-la em sua plenitude e assim, poder respirar aliviado com a sensação de dever cumprido.

 

Para finalizar, tento responder o que é ser de esquerda hoje. Ser de esquerda é ser humanista, é se sentir injustiçado pelas causas do mundo, é ser solidário, é ter senso crítico, é ter consciência dos problemas locais, nacionais e mundiais, e correlaciona-los, é se preocupar com as minorias, é lutar para se expressar de todas as maneiras possíveis, é ser fã da democracia radical, em suma, é ser diferente justamente do inimigo comum, criar possibilidades e alternativas de convivência, respeito e principalmente amor, pois um socialista sem amor, definitivamente, está longe de ser um socialista.



Escrito por Mr. B às 01h03
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